Na casa estavam dez pessoas. Elas aproveitavam a tarde tomando um café antes de seguirem caminho. Ora uma entrava ora outra saía. Magali e Quim se revezavam no balcão. Um servia e outro ficava no caixa. De vez em quando iam à cozinha e voltavam com pães e salgados frescos para estocar novamente a vitrine.
Quim voltou com a bandeja na mão e a colocou sobre o balcão.
— Então... Como eu ia dizendo: Fiquei duas semanas sem ir pra escola. Só deitado no sofá assistindo Tv todo o dia. Um sonho.
— Só assim pra gostarmos de ficar com o pé torcido.
— Pra ser sincero, a minha perna sarou na primeira semana... — Quim sorriu maliciosamente. — Mas fiquei fingindo pra não ter de voltar pra escola.
Magali colocou as mãos sobre o rosto abafando a gargalhada.
— Sabe... Uma vez tentei fazer um mortal no pula-pula... Trágico. Bati com o pescoço... Pensei que ia morrer. Mas foi só uma dorzinha mesmo. Pior mesmo foi a vergonha. — Ela disse e Quim começou a rir. — Imagina você na festa com vários dos seus primos... Não ria! Foi um horror!
— Eu também não sei dar mortal. Meus amigos me zoavam porque eu era o único que não sabia dar umas piruetas e me atirar na piscina.
— Pois sabe o que eu não sei fazer? Dar estrelinha. — Comentou Magali fazendo Quim gargalhar — Sério! Nunca soube. Eu tentei uma vez, mas não deu muito certo. Você nunca vai achar uma pessoa com pior coordenação motora que eu.
— Pois sabe o que é você mirar a bola à direita e ela ir pra esquerda? Prazer, Quim. Por isso que não jogo futebol. O povo me olha diferente porque sou menino e não sei jogar...
— Que esporte você joga?
— Nenhum... — Quim olhou para o balcão e fez uma cara desolada. Depois olhou pra Magali e sorriu. — Mas eu sei tocar violão.
— Jura? Ah... Um dia eu quero que você toque pra mim. — O rosto de Quim se iluminou.
— Pode deixar. Mas se eu tocar mal... Por favor, minta e diga que eu toco bem. — Os dois riram.
Quim pegou a bandeja e foi em direção às mesas ao fundo. Ela o seguiu com olhar. “Mas o que é isso Magali? Não vai se perder agora! Aguenta esse coraçãozinho aí, amiga... Oh. Merda! Tarde demais...”.
⇠ △ ⇢
Ângelo chegou do Colégio e foi direto para o seu quarto. Pegou do alto da estante o DVD de capa cinzenta que recebera de Renato na noite passada.
Ângelo nunca teve um “relacionamento” de verdade. Chegou a ficar com umas duas garotas, mas por pura pressão dos amigos. A verdade é que paixão mesmo nunca teve. Nunca houve em seu coração um sentimento puro mesmo. Sempre amizade. Admiração, no máximo. Então quando ele foi entregar o bolo ao novo vizinho e viu Renato, seu coração se encheu de adrenalina e faltou-lhe ar. “Mas talvez tenha sido pura emoção de conhecer uma pessoa nova”. É. Talvez...
Ele colocou o disco no computador e o filme começou.
⇠ △ ⇢
Passaram algumas horas, mas o sol ainda iluminava a fachada da padaria. E, como flores que só se fecham quando o dia acaba os clientes ainda ocupavam as mesas. Só trocavam de lugar, como um jogo em que jogamos quando criança. Um pagava a conta e saía enquanto outro chegava e ocupava o seu lugar.
— ...E eu nem sei por que eles não moram aqui. — Magali disse enquanto esperava o recibo que Quim imprimia.
— Eu também nunca gostei disso, sabe? Cada um ficar em uma cidade, ou no meu caso, países diferentes. Se tivesse muita grana mesmo, eu juntava a minha família toda aqui, comigo.
— Pois também é o meu sonho: Todo mundo junto.
— Um dia eu ainda consigo! — Ele sorriu e entregou o recibo.
Magali foi para o fundo da padaria e entregou à senhora. Ela tentou levantar, mas demonstrou dificuldade então Magali a ajudou e a acompanhou até a saída da loja.
— Muito obrigada, querida. — Disse a senhora enquanto acariciou o rosto de Magali e seguiu caminho pela calçada.
Magali se virou e deu dois passos quando ouviu outros atrás dela. Virou-se e viu Denise.
— Boa tarde, Magali. Sentiu minha falta? — Denise disse em um tom desafiante.
— Nem imagina o quanto, Denise. — Magali cruzou os braços. Denise ficou um tempo encarando ela, até que olhou por cima do ombro dela e avistou Quim que digitava no computador.
— Bonito o seu amiguinho...
Magali se virou e depois voltou o seu olhar à Denise.
— O que você quer, hein?
— Olha o jeito como trata sua cliente... Bem, eu estou com fome. — Ela olhou a área em que ficavam as mesas. — Eu vou sentar um pouco. Traga-me o cardápio.
Denise foi para o fundo da loja e Magali foi até o balcão.
— Tudo bem, Magali? — Perguntou Quim.
— hã? Ah... Sim está tudo bem. Só vou entregar o cardápio.
Denise estava sentada de pernas cruzadas a uma mesa que ficava no centro. Ela exibia um sorriso triunfante.
— Aqui. — Magali entregou o cardápio.
— Hum... vamos ver... — Ela passou os olhos rapidamente página por página. — Me traga um suco de laranja. Sem açúcar.
Magali recolheu o cardápio e não disse uma palavra. Ela ia em direção à cozinha quando Quim se levantou rapidamente e segurou o seu braço.
— Espera, Magali. O que foi? — Ele a soltou. Magali suspirou profundamente. Ela olhou para o chão e depois para Quim.
— É que... Tem uma garota antipática aí que fica me infernizando... Mas não se preocupe, eu resolvo.
— Não, espera, Magali. Eu vou lá.
— Não Quim! Eu resolvo.
— Não, você fica aqui. Eu já volto.
Magali ficou parada em frente ao balcão. Porém, por mais que ela quisesse ver o que acontecia, não pôde já que as mesas ficavam bem atrás do balcão de pagamento. Depois de uns segundos Denise passou andando rapidamente em direção à saída. Mas antes de sair olhou para Magali. Ela parecia furiosa. Magali ficou preocupada. Então Quim apareceu.
— E aí, o que você fez?
— Eu? Nada. Só pedi pra que ela saísse... e nunca mais voltasse. — Ele sorriu.
— Quim... me perdoe. Eu não queria uma situação dessas...
— Magali, Magali. Relaxa, eu sei que não foi culpa sua. Pessoas como essa menina aí fazem qualquer coisa pra incomodar. Não tem discernimento.
Magali abaixou o olhar.
— Obrigada, Quim.
— Por nada. E quando ela aparecer de novo, me diz que eu chuto ela daqui. — Quim sorriu. — Agora não fica desse jeito. Prefiro quando você está sorrindo.
Magali sorriu e arriscou olhar diretamente para Quim, mas ficou sem graça e desviou o olhar na mesma hora.
— Eu vou... atender as mesas... — Ela disse se afastando.
Dessa vez foi Quim que a seguiu com o olhar.
⇠ △ ⇢
O cinema ficava entre uma joalheria e uma galeria de arte. Era constituído de cinco salas onde passavam todos os dias da semana os últimos lançamentos da indústria cinematográfica. Sem dúvida era uma das onze maravilhas da cidade. Sempre havia pessoas saindo e entrando para as salas mágicas que te levavam desde as terras místicas de Tolkien aos mundos distantes de Star Trek.
Laís, uma bela garota de longos cabelos pretos lisos e olhos escuros, e Leandro, um garoto (relativamente bonito) dono de cabelos castanhos lisos que ele os arrumava para frente criando uma franja que cobria a sua testa e de olhos escuros, aguardavam Cebola e Mônica na frente da bilheteria. Laís estava ansiosa, mas confiante. Leandro estava apenas confiante. Ele estava mais curioso que ansioso. Ironicamente, sua irmã o havia avisado de que sairia com um menino e que ele levaria uma amiga. Mas como ela queria ficar a sós com o tal garoto ele deveria acompanhá-la e distrair a amiga inoportuna. Ele aceitou mais por falta do que fazer do que por interesse. Na verdade, para ele uma garota a mais ou a menos era apenas mais um troféu na prateleira.
Cebola e Mônica chegaram à bilheteria. Mônica usava uma calça jeans, uma camiseta preta com poás brancos e sapatilhas – A última coisa que queria era impressionar o garoto. Já Cebola usava uma calça jeans preta, um casaco com capuz de cor cinza e por baixo uma blusa azul. Laís logo que os viu abriu o rosto em largo sorriso e correu para abraçar Cebola que ficou um pouco constrangido. Leandro avançou lentamente até o trio. Ele analisou de cima a baixo Mônica que apenas fitava os cartazes expostos no hall.
Cebola no início pareceu um pouco incomodado com a situação, mas logo se acomodou. Ele disse que iria comprar os ingressos, mas parou quando viu quatro na mão de Laís. Eles foram em direção às salas de exibição e, enquanto Mônica e Cebola iam à frente, Leandro cochichou no ouvido da irmã: “Que garota esquisita, melhor era ter ficado em casa...”. Laís se virou para ele e o mandou calar.
Os quatro se acomodaram na última fila de baixo para cima. Porém um casal ficou no extremo da direita, enquanto outro ficou no extremo da esquerda.
O filme começou.
⇠ △ ⇢
Ângelo desligou o computador e parou fitando a tela: “É realmente muito lindo!”. Ele colocou o DVD dentro da capa e a segurou. Devia devolver agora? Esperar, talvez? Não. Talvez Renato quisesse assisti-lo. Mas ele tinha medo de encontrá-lo novamente. Não que o vizinho demonstrasse perigo, é que ele não se sentia confortável por mais que o outro o tratasse bem. Aliás, aí residia o problema: a simpatia. Se o morador ainda o tratasse com indiferença ele não sentiria essa aflição, isso é fato. Porém o DVD, que agora ele girava com as mãos, estava em sua posse e ele não poderia simplesmente deixar de devolvê-lo. Respirou fundo: “Eu o devolvo, e pronto. Acabou.” E nessa certeza ele vestiu o casaco e pegou o maldito DVD se dirigindo ao apartamento do novo vizinho.
A porta se abriu e Renato apareceu. Ele limpava as mãos com uma toalha de cozinha.
— Ah! Ângelo. Entra. — Ângelo acenou com a cabeça e entrou.
O apartamento estava visivelmente mais arrumado. As caixas desapareceram quase que por completo. Apenas uma ou duas ainda persistiam em ficar no canto da sala. A Tv agora estava sobre um pequeno rack de madeira. Quadros de pinturas abstratas enfeitavam as paredes esbanjando cores e formas. No canto do lado da porta que dava para a sacada estava a estante acomodando as diversas capas de DVD.
— E então, assistiu? — Renato disse enquanto secava algumas panelas que estavam sobre a pia.
— Aham... É incrível! Os efeitos visuais, a trama, os personagens... Você tem razão em gostar tanto desse filme.
— É. Impossível acreditar que ele foi indicado aos Melhores Efeitos Visuais e não ganhou...
— Sério? Nossa... — Ângelo olhou em volta — Deu uma arrumada aqui, não foi?
— Ah, foi. Eu aproveitei que tive a tarde hoje livre e arrumei a tralha que tava aqui. Falta colocar a mesa para o Notebook. É que eu ainda não comprei.
— Porque se mudou?
— É que eu morava em um condomínio horrível. Tinha barulho todos os dias. Davam festas e sempre colocavam um carro com o som no talo e simplesmente não dava pra dormir. Sem falar que nem ficava tão perto da minha Universidade. Daqui basta vinte minutos e eu chego.
— Bom, eu te garanto que barulho é o que você não vai encontrar aqui... — Ângelo sorriu — Às vezes acho isso parado demais. Acho que daqui a uma semana você vai implorar pelo seu antigo prédio...
— Acho difícil... Já adoro esse lugar.
— Bem... Eu... preciso ir.
— Ah, ok. Ah! Eu estou com a travessa de você aqui, prometo que amanhã eu devolvo.
— Ah, não se preocupa com isso. Tenho certeza que nem está fazendo falta.
— Bem, até mais.
— Até. — Ângelo disse e a porta diante dele se fechou.
⇠ △ ⇢
O filme acabou e os quatro voltaram para frente da bilheteria. Laís conversava com Cebola, Leandro não parava de olhar para Mônica, mas ela apenas observava os cartazes no hall, fingindo estar distraída.
— Léo, porque você não me acompanha até a minha casa?
Cebola se desvencilhou das mãos que agarravam o seu braço e foi até Mônica e passou um braço sobre o seu ombro.
— Não vai dar, Laís. Eu vou levar a Mônica para casa.
— Ué, o Leandro leva ela.
— Não, não eu prometi à mãe dela de que eu a levaria. Pessoalmente.
Laís mostrou um descontentamento.
— Bem... Então, a gente depois combina de novo alguma coisa.
— Aham, combinamos sim. Bom, temos que ir. Já está tarde. Tchau.
— Tchau. — Laís disse. Leandro apenas olhou para Mônica, mas ela desviou o olhar.
Quando saíram os dois do cinema ainda eram onze horas da noite. A rua estava movimentada como sempre ficava às sextas. A cidade, repleta de luzes coloridas nem parecia estar mergulhada na escuridão da noite. Pessoas iam de um lado para o outro. Mães com filhos, filhas com pais, irmãos com irmãs, amigos com amigas, namorados com namoradas...
— Tá a fim de tomar um sorvete? — Cebola disse quando avistou uma sorveteria na esquina. Mônica resplandeceu com um sorriso.
— De chocolate!
Ele a abraçou fortemente e seguiram em direção à sorveteria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário