Mônica cumprimentou Dona Amélia que lia uma revista de fofoca e seguiu para a mesa nos fundos da biblioteca onde apenas o Do Contra estava sentado.
— Boa tarde, Luís!
Do Contra levantou o olhar do livro e sorriu para a Mônica.
— Boa tarde, Mônica.
— Desculpa, eu me atrasei organizando umas coisas no meu quarto.
— Que vergonha, deixando o quarto na bagunça...
— Vai tirando com a minha cara... Mas é que eu não achava os meus livros de manhã então revirei tudo procurando eles. Só pude arrumar agora. — Ela disse. Do Contra deu um leve sorriso. — Cadê o Vítor?
— Ahh, Ele cansou de folhear livros... Acho que foram muitas palavras pra cabeça dele.
— Sério? Poxa, é uma pena. Vou sentir falta dele... — Mônica disse enquanto analisava a folha com a tabela enorme e a expressão de Do Contra se tornou mais tristonha.
— Bom, qualquer coisa você pode vê-lo amanhã no intervalo... — Ele disse e Mônica notou o descontentamento do amigo. — Toma, cataloga esse aqui.
— “A menina que não sabia ler”... Já li esse livro...
— É bom?
— Aham, se você aguenta um livro gótico cheio de pesadelos e essas coisas, sim. — Ela sorriu gentilmente.
— Não faz muito o meu estilo então...
— Nem o meu, mas não parecia ser assim tão mal quando eu vi ele na prateleira. Você o pretende ler?
— Acho que não.
— Bom, então eu posso te contar o final: A menina mata o melhor amigo que estava apaixonado por ela no final...
Do Contra arregalou os olhos atônito. E os dois se puseram a rir.
— Sério?! — Ele disse surpreso e Mônica acenou positivamente com a cabeça. — Você não pretende fazer isso comigo não, né?
— Por quê?... Você está apaixonado por mim?
Do Contra sentiu o seu rosto se aquecer e fez de tudo para não mudar a sua expressão tentando se manter calmo. Ele se arrependeu profundamente do que havia dito, mas só havia notado quando as palavras já haviam chegado aos ouvidos de Mônica.
— Não... é que eu sou o seu amigo... eu acho. — Ele disse fazendo Mônica sorrir.
— Claro que é. Mas não se preocupa que eu não costumo matar os meus amigos.
— Ainda bem...
⇠△⇢
O Shopping estava cheio como sempre. Parecia que as pessoas nunca saíam de lá, muito pelo contrário, parecia que elas moravam lá como se o enorme conjunto de lojas na verdade fosse um condomínio. Porém um condomínio em que tudo sempre parecia ser feito de alegria. E essa alegria estava em todos os lugares: nas lojas, nos galanteios dos vendedores, nas máquinas de doces, nas sacolas de compra, na caixa registradora, no dinheiro que passava de mão em mão...
O Shopping era o refúgio de Carmen e Denise. Elas sempre iam pra lá quando tinham oportunidade, fosse para comprar outra roupa ou simplesmente para se torturarem diante das peças que não poderiam comprar. Carmen às vezes dava mais sorte que a amiga. Filha de um cirurgião plástico conceituado, não tinha problemas com dinheiro. Aliás, nem a sua mãe que não precisava trabalhar e preferia passar os tempos de ócio indo a Spas, conversando com as amigas, comprando, fofocando... Carmen era filha única e foi sempre considerada a estrela guia da casa. Sua mãe sempre passava a mão sobre sua cabeça e aliviava as tensões quando a filha se desentendia com pai. Ele era rude e estava sempre de mau humor e às vezes era severo. Porém, não exigia nada da filha e não lhe dava a atenção necessária (e às vezes castigo necessário) o que fez com que Carmen crescesse sem nenhum limite – Exceto o de crédito, quando o seu pai considerava um comportamento seu demasiado exagerado e a impedia de fazer o ritual de compras, mas isso não durava mais de três dias.
A mãe de Denise tinha uma condição financeira melhor que a maioria das mães do Colégio onde estudava, mas a falta de atenção com a filha fazia com que nem sempre Denise pudesse usufruir do dinheiro, e quando isso acontecia ela se negava a pedir ao padrasto – O que também era muito sensato, uma vez que ele mal ganhava para si mesmo.
O dia de “caça” havia sido promissor. As meninas se sentaram à mesa acompanhadas das dezenas de sacolas de várias lojas diferentes.
— ...E aí a sem noção da Débora veio me falar que tava com o Dani e que ele havia dito pra ela que ele já tinha me esquecido e que ela era mil vezes melhor que eu! Acredita nisso? — Carmen olhava o celular enquanto desabafava com a amiga que olhava para o chão meio absorta. — Eu não tô nem aí, na verdade... O Dani era um galinha. Lembra quando eu te contei que ele ficou de papo com a Diana na festa da Laurinha? O desgraçado me largou lá sozinha... Aí vem me falar que a Débora é melhor do que eu?! Sinceramente. Logo a Débora, aquela vaca! Parece que não se enxerga no espelho. Mas deixa esses dois... Eu quero mais é que eles vão pra o inferno!
Carmen terminou de falar e olhou em direção à amiga que, percebendo que a sessão de desabafo havia terminado, olhou para ela também.
— Que foi Denise? Não me diga que o idiota do Guilherme se meteu contigo de novo?!
— Não, não foi nada disso... — Ela disse com um cansaço na voz.
— O que foi então? — Carmen perguntou já um pouco nervosa.
— Ahh... É uns problemas lá em casa... — Denise falou desanimada.
— Ué, me conta! O que aconteceu?
— O idiota do Fábio ontem tava naquela merda de notebook dele e simplesmente havia colocado na cabeça que não ia dar comida pro Hugo enquanto ele não terminasse. Aquilo me tirou do sério! E a minha mãe parece que não vê. Aliás, é claro que ela não vê, ela nunca está em casa!
— Você está assim só por causa disso?! — Carmen disse desdenhosa. Poucas vezes se importava com problemas que não fossem seus.
— E acha pouco, Carmen?! A minha mãe já não fica em casa, o meu padrasto vive no mundo da lua parecendo que não toma juízo e o meu irmão vive abandonado! Quando eles inventam de fazer viagens, que sempre vão só os dois, deixam ele com a minha avó, fazendo ele faltar aula... Acha isso pouco Carmen?!
— Ihh... Deixa disso Denise! Meus pais também vivem fazendo borrada nem por isso fico assim, emburrada. Pior estou eu, com essa história da Débora!
— Você é uma egoísta! Pra você os seus problemas são sempre enormes, mas pros outros...
— Qual é, Denise?! Vai ficar tirando com a minha cara?!
— Cansei, Carmen. Cansei de ficar ouvindo seus problemas e quando eu falo dos meus você faz por menos!
— Ah, é? Cansou de mim, vai andar com quem então? Com as tapadas da Mônica e da Marina?!
— Antes com elas que com você!
Denise recolheu todas as suas sacolas num instante, levantou da mesa e desapareceu por entre a multidão que estava na praça de alimentação deixando Carmen sozinha.
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Aninha chegou na padaria Quim puxando Nimbus pelo braço. Ela o levou até uma mesa nos fundos da loja onde os dois se sentaram. Nimbus admirava a decoração retrô.
— E essa é o Quim! — Aninha disse enquanto percorria a loja com o olhar. Nimbus sorriu.
— É realmente muito linda. Se tem comida boa, eu não sei... Mas que é encantadora, isso é!
— E sabe quem trabalha aqui? A Magali.
— Sério? Até que é uma boa, já que ela quer trabalhar com gastronomia.
— Aham. — Aninha pegou o menu e o segurou à sua frente tapando o seu rosto. Nimbus o abaixou com a mão vendo os olhos da amiga.
— E aí? O que me aconselha pedir?
— hum... gosta de doces ou salgados? Ah! Já sei! Você vai experimentar a famosa torta de frango daqui. É simplesmente divino!
— Ok, cê que sabe! — Ele exibiu o melhor sorriso que pôde.
— Olá! Oi, me vê duas tortas de frango, por favor?
— Sim senhora. — Quim disse se afastando em direção ao balcão.
As tortas chegaram logo a seguir e os dois se puseram a saborear. A conversa rolava solta. Ora Aninha perguntava os gostos do Nimbus, ora ele perguntava da história dela, sempre se desviando dos acontecimentos em que poderiam envolver o Titi. Aliás, este nome não foi proferido uma vez sequer durante todo o tempo em que estiveram conversando, “pode ser que ela não esteja mais afim dele... Talvez brigaram”. Nimbus apesar de já estar completamente apaixonado pela Aninha não se atreveu a fazer galanteios, apenas se limitou a ouvi-la, pois como ela havia dito: “...Nem sempre me ouvem”. Nimbus interpretou o sujeito implícito na frase como “Titi” e não pôde evitar o sentimento de satisfação de dar a devida atenção a Aninha que o mala do seu namorado não se dignava a dar.
As horas para os dois passaram rápido, e quando viram já era hora de voltarem. Foram em direção ao caixa onde a Magali estava e Nimbus pagou a conta, ainda que a Aninha insistisse que ela pagasse já que fora ela que o havia convidado. A Magali entregou o recibo e, quando o Nimbus se virou em direção a saída, ela piscou para a amiga e disse em surdina que havia adorado o seu novo namorado. Aninha deu de ombros e acelerou a passo em direção ao Nimbus que já saía da loja e seguiram os dois juntos para suas casas.
Nimbus morava antes da Aninha, mas insistiu em acompanhá-la até a sua casa o que ela aceitou de muito grado.
— Obrigada, Nimbus.
— Não, eu que devo agradecer por me levar até a melhor torta que eu já comi na minha vida! — Os dois riram. — Te vejo amanhã, então?
— Aham. Claro! — Ela disse sorrindo.
Aninha se inclinou em direção a ele que, percebendo que ela se aproximava, simplesmente ficou estático. Ela deu um beijo em seu rosto e se despediu fechando o portão. Durante alguns segundos ele havia esquecido onde morava, e quando lembrou correu para a sua casa e se jogou na cama com um enorme sorriso estampado no rosto.
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Magali se despediu de Aninha e Nimbus e quando eles desapareceram pela porta Quim se aproximou dela.
— São seus amigos? — Ele perguntou sorrindo.
— São sim, a Aninha e o Nimbus.
— Formam um belo casal!
— Eu também acho... Mas tem um tal de Thiago no meio caminho.
— No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho... — Quim disse enquanto fitava o balcão, mas a sua frase não foi em solidariedade ao amigo da Magali, mas sim a si mesmo imaginando o “namorado” da Magali como uma grande rocha pesada bloqueando uma trilha em meio a um jardim.
— Carlos Drummond de Andrade... Pois é. Essa minha amiga tá com um mala e não sei porquê os dois não terminam. Ainda mais com o Nimbus rondando ela. Ele é um cara muito legal...
As palavras da Magali, que mais eram um desabafo, encheram o Quim de coragem, coragem que ele estava buscando nos últimos dias. Ele respirou fundo e se virou para a Magali.
— Magá, você tá afim de sair comigo depois de amanhã? — Ele disse tentando manter o rosto mais sereno possível.
—...sair? — Magali ficou em estado de choque.
— É... mas só se você não tiver nada pra fazer...
— Não, eu não tenho. — Ela sorriu pra ele o que o acalmou. — E pra onde vamos?
— Não sei... Gosta de jogos? Que tal irmos para o fliperama?
— Adorei!
— Então fica combinado, então. Er... Eu vou... terminar de atender as mesas... — Ele sorriu satisfeito para Magali que retribuiu o sorriso.
— Ele me chamou pra sair... — Ela disse em surdina ainda extasiada.
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— Amor! A comida tá pronta! — gritou uma voz vinda da cozinha.
— Já tô indo!
Já era noite. Seu Gioachino fechou o jornal e se levantou da poltrona indo em direção a sala de jantar. Na mesa apenas Lis estava sentada. Ela brincava com o garfo como se espetasse algo invisível no prato. Ele se sentou no seu lugar habitual
— Então, mia cara, como foi o seu dia? — Ele disse com o seu sotaque italiano inerente.
— Foi legal, pai! Hoje eu fiz um coelhinho de massinha!
— Foi?! Que interessante! Ele gostava de cenoura?
— Num sei... — Ela parou de mexer o garfo. — Ele era laranja...
— Ahh...
— Sabe o que a Fabí disse pra mim hoje?! — Ela voltou a mexer com o garfo.
Seu Gioachino não sabia quem era a Fabí, mas deu de ombros.
— O quê?
— Disse que quando comemos chocolate o nosso cabelo cresce! ...Foi a avó dela que disse
— Verdade? Então eu vou esconder todos os chocolates dessa casa por que a sua mãe disse que você está precisando cortar o cabelo. — Ele disse sorrindo pra ela.
— Não! — Ela disse rindo.
— Prontinho! — A mãe se aproximou da mesa dispondo os pratos sobre ela. — Hoje temos macarrão com almôndega e salada, que a senhora Lis vai comer.
— Não...
— Vai sim!
— Faz crescer o cabelo! — Seu Gioachino sussurrou para a filha. Ela logo se animou a aceitou a salada.
— E o Quim, cadê?
— Não sei, chegou em casa parecendo que tinha sido abduzido...
— Quim! Vem jantar!
— Tô indo! — Uma voz respondeu do segundo andar.
Ouviram passos a descer a escada e logo depois o Quim já estava sentado à mesa se servindo.
— E então, filho, como foi o seu dia? — A sua mãe perguntou enquanto colocava mais salada no prato da Laís.
— Foi ótimo! — Ele disse enchendo a boca com macarrão.
— E me fala uma coisa, você é gentil com a Magali? — Perguntou o pai. — Ela é uma garota muito inteligente e educada...
— Já tá arranjando casamento pra ele? — A mãe perguntou.
— Eu não... Mas se é pra casar, melhor que seja com uma moça direita. Eu faria muito gosto no namoro de vocês dois.
— Bom nesse caso... Você poderia deixar o Arthur cuidando da padaria depois de amanhã?
— Posso... Porquê?
— É que eu chamei a Magali pra sair. — Quim riu para o pai.
— Molto bene! Este é o meu filho! — Seu Gioachino disse enquanto deu uns tapinhas nas costas do filho. A mãe assistia a cena sorrindo enquanto Lis estava compenetrada tentando espetar o pedaço de cenoura arredio.
— Só vocês mesmo... — A mãe disse sorrindo. Estava orgulhosa do filho, mas mais curiosa para conhecer a garota.
— E pra onde vai levar ela? Olha lá o que você vai fazer... — O seu Gioachino falou com um sorriso grudado ao rosto.
— Relaxa, vamos pro fliperama...
— Fliperama?! — Lis acordou do transe da cenoura. — Posso ir? Por favor!
— Não Lis, vai só o seu irmão... E come essa cenoura! — A mãe disse empurrando a cenoura que estava no canto do prato para o centro.
— Mas eu não gosto de cenoura...
— Mas vai comer!
— Filho, fico muito feliz que você e a Magali estejam se acertando. Tomara que dê tudo certo.
— Tomara, pai... Tomara...
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